Harry Kane mais uma vez carregou a Inglaterra nas costas quando a seleção mais precisou. Com dois gols decisivos nos minutos finais, o camisa 9 inglês operou uma reviravolta dramática sobre a República Democrática do Congo - 2 a 1 - e garantiu a classificação de Thomas Tuchel para as oitavas de final da Copa do Mundo, onde a Inglaterra enfrentará o México, co-anfitrião do torneio. Um jogo que poderia ter terminado em humilhação histórica se transformou, graças ao centroavante, em mais um capítulo da sua saga de decisões em grandes competições.
A partida começou da pior forma possível para os ingleses. Aos sete minutos, Brian Cipenga aproveitou uma desorganização defensiva alarmante para bater Jordan Pickford no primeiro poste e abrir o placar para a RD Congo - que disputava pela primeira vez na história um jogo eliminatório de Copa do Mundo. A falha coletiva foi evidente: Ezri Konsa e Marc Guehi se posicionaram próximos demais, arrastando Djed Spence para fora da cobertura, enquanto Noni Madueke não voltou para ajudar na marcação. Pickford, por sua vez, foi batido com facilidade desconcertante. O episódio levantou, mais uma vez, questões estruturais sobre a retaguarda inglesa - algo que Tuchel também precisará resolver quando o campeonato doméstico recomeçar, em cenários como o do Arsenal com Arteta na temporada 2026/27, que mostra como a solidez defensiva é fator determinante para equipes que brigam por títulos.
Durante longo trecho da partida, a Inglaterra empurrou sem efetividade. Jude Bellingham foi travado em três oportunidades claras. Marcus Rashford viu um chute ser tirado da linha por Aaron Wan-Bissaka, ex-companheiro de clube. Kane ainda teve um pênalti negado de forma controversa após ser derrubado pelo goleiro Lionel Mpasi dentro da área. O arqueiro congolês foi o principal responsável por manter seu time à frente, realizando uma sequência de defesas que frustraram os europeus durante quase todo o segundo tempo.
A virada que só Kane protagoniza
A entrada do reserva Anthony Gordon foi o ponto de inflexão. Aos 75 minutos, o atacante cruzou com qualidade e Kane apareceu para cabecear com precisão, empatando o confronto. Mas o capitão inglês não havia terminado. Aos 86 minutos, após encontrar espaço em meio a uma aglomeração de defensores, Kane acertou uma bomba no ângulo superior da rede - um gol que encerrou o debate sobre o resultado e ecoou pela arena com a força de quem já conhece bem o peso dessas ocasiões.
Os números contextualizam a grandeza do momento. Kane tornou-se o primeiro jogador inglês a marcar dois gols em uma partida eliminatória de Copa do Mundo desde Gary Lineker, diante de Camarões nas quartas de final de 1990 - mais de três décadas atrás. Desde a Eurocopa de 2020, o atacante acumula dez gols em onze aparições em fases eliminatórias de grandes torneios, três a mais do que qualquer outro jogador europeu no mesmo período. Kylian Mbappé aparece em segundo, com sete. Na temporada em curso entre clube e seleção, Kane chegou à impressionante marca de 72 gols.
Tuchel elogia, mas sabe que há muito a corrigir
"É o que esperamos dele. É o que ele espera de si mesmo. Jogos difíceis, jogos equilibrados - o Harry está aqui para decidir. Nível máximo", declarou Thomas Tuchel à BBC ao falar sobre o capitão. Sobre a partida como um todo, o técnico alemão reconheceu as adversidades, mas destacou a mentalidade do grupo: "Você tem que lidar com cada situação que aparece. Eles marcaram cedo. Mas continuamos batendo na porta, batendo e batendo. A reação e a crença são únicas. Encontramos um jeito de vencer. Bem merecido."
Kane, por sua vez, pediu paciência e celebração aos companheiros: "Às vezes, como jogador inglês, você não comemora como deveria. Assim como qualquer outra seleção, estamos classificados - aproveitem. Ao longo dos 90 minutos, somos difíceis de lidar." A fala carrega uma mensagem implícita sobre a pressão histórica que recai sobre a camisa da Inglaterra em Copas do Mundo - e a tentativa do capitão de aliviar esse peso psicológico dentro do vestiário.
Dúvidas que vão para as oitavas junto com a equipe
A classificação é inegável. Ninguém se lembrará de uma atuação abaixo do esperado na fase de grupos expandida se a taça vier para casa. Mas Tuchel sabe - e provavelmente dormiu pouco após o apito final - que o México nas oitavas representará um teste de outra dimensão. A posição de lateral-direito segue sem dono claro: Spence foi superado com frequência preocupante, e Declan Rice, improvisado ali durante parte do jogo, fez razoavelmente bem - mas retirá-lo do meio-campo cria outro vazio difícil de tapar. A dependência de Kane para criar e definir é excessiva para uma equipe com ambições de campeã. O suporte ao redor do centroavante precisa crescer, e crescer rápido.